Kwé Seja Hùnde, a Roça do Ventura
O terreiro jêje de Cachoeira, patrimônio cultural do Brasil — em vídeo e na história, da fundação por Maria Ogorensi à Roça do Ventura.
CachoeiraRecôncavo Baiano, Bahia, Brasil
O Zòògodò Bogun Malè Seja Hùnde — Kwé Seja Hùnde’ — é um terreiro brasileiro de Candomblé Jeje situado em Cachoeira, no Recôncavo Baiano. Foi reconhecido como patrimônio cultural do Brasil em 4 de dezembro de 2014.
O Kwé Seja Hùnde foi fundado por Maria Luísa Gonsaga — Maria Ogorensi — na metade final do século XIX. O ano exato de sua fundação se perdeu na história.
Maria Ogorensi era filha-de-santo da africana mahi Ludovina Pessoa, figura central na constituição do candomblé jeje baiano. Possivelmente foi iniciada por Ludovina no terreiro que funcionava na Fazenda Altamira, também em Cachoeira.
Ao que tudo indica, Maria Ogorensi deixou a Fazenda Altamira para fundar seu próprio terreiro enquanto sua mãe-de-santo ainda era viva. Desconhece-se o que pode tê-la motivado, mas a tradição oral cultivada pelos jejes cachoeiranos até hoje descarta qualquer tipo de conflito ou desentendimento.
Maria Ogorensi fundou o Kwé Seja Hùnde nas terras de seu marido, Manoel Ventura Esteves — de onde nasceu, ainda no século XIX, o apelido "Roça do Ventura". Outro apelido do mesmo período foi "Roça de Baixo", em contraposição ao terreiro da Fazenda Altamira, apelidado de "Roça de Cima".
Iniciada para o vodun Bessén, Maria Ogorensi consagrou o terreiro a ele. O barracão, entretanto, foi consagrado a Azansu — talvez em homenagem a seu terreiro de origem, que era de Azansu.
Por volta de 1900, quando Ludovina Pessoa já havia falecido, a Roça de Cima começou a decair, seja pelo falecimento das vodunsis mais antigas, seja pela falta de liderança. Foi fechada, e as filhas-de-santo de Ludovina desceram para integrar a Roça de Baixo — o Kwé Seja Hùnde, comandado por Maria Ogorensi. A junção pacífica das duas roças reforça a tradição oral, que afirma não ter havido nenhuma dissensão entre os dois terreiros.
Maria Ogorensi ficou à frente do Kwé Seja Hùnde até o seu falecimento, em 1923. O comando passou então a Sinhá Abali, filha-de-santo de Ludovina Pessoa e, portanto, irmã-de-santo de Maria Ogorensi.
A linhagem de Ludovina Pessoa
Ludovina fundou o templo para Dã — o Kwé Sɛ̀jáhùnɖé, mais conhecido como Roça do Ventura, Pó Zenhém (Kpó Zenhen) ou ainda Zogbodo Male Gbogun Séjáhùndé, em Cachoeira — e o templo para Quevioço, o Zoogodo Bogun Male Hundô, Terreiro do Bogum, em Salvador. O templo para Sapatá, não se sabe por quê, não chegou a ser fundado. Esse é o segmento Jeje Mahi dos fons.
O templo de Ajunçum-Sapatá foi fundado mais tarde pela africana gaiacú Satu, em Cachoeira e São Félix, e recebeu o nome de Axé Pó Egi — mais conhecido como Terreiro Cacunda de Iaiá. Teve como representante a gaiacú Maria de Lourdes Buana (Gaiacú Ominibu Cafaé Fobá), falecida em outubro de 2014, filha de Mãe Tança de Nanã (Jaoci), que era filha de Gaiacú Satu.
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